Saturday, June 15, 2013

Cobertura via redes sociais = ameaça ao totalitarismo jornalístico

Os acontecimentos dos últimos dias na cidade de São Paulo, com os protestos que começaram devidos ao aumento da tarifa do ônibus e hoje se tornaram questão de honra para o povo paulistano, mudaram alguns paradigmas já sedimentados na nossa volátil realidade.

Em primeiro lugar, o de que o povo brasileiro está adormecido. Outras manifestações contra o também aumento em outras partes do Brasil e a insistência dos paulistanos em não mais aceitarem o que lhes é imposto sem cabimento mostram que os brasileiros voltam a reconhecer seu lugar. Eu, particularmente, achava assustadora a inércia da nossa gente desde o movimento das Diretas Já. Sinto-me aliviada, apesar da truculência da polícia e da devastação geral.

Outra coisa: os papeis de mocinho e bandido nem sempre são assim tão evidentes. As situações mudam e revelam as intenções. Uma batalha social que iniciou contrária à opinião pública, por erro de estratégia dos senhores prefeito e governador, tornou-se o manifesto de salvadores da pátria contra a polícia militar. Conclusão, governador tomou para si uma bronca que, inicialmente, era do prefeito Haddad, quando botou a polícia para “quebrar”. O prefeito paulistano, por sua vez, revelou-se passivo frente aos seus eleitores – porque eram eles no meio da manifestação, não os eleitores do PSDB.

 E, por último, mas não menos importante, a queda do absolutismo jornalístico como única forma legítima de noticiar. A cobertura medonha e tendenciosa da grande mídia diante dos fatos foi chamuscada pelo tratamento realista das redes sociais por parte dos que viviam aqueles momentos e davam seus depoimentos desprovidos de interesses mercadológicos ou políticos. E nada assusta mais os poderosos jornalistas que a perda do domínio total da verdade.

Mas, diante disso, de uma população que não mais apenas acha, mas também escreve, relata, filma, reporta, enfim, faz o nosso trabalho, onde ficamos nós? Que função nos cabe quando deixamos de ser absolutos e vemos pobres mortais atuando na nossa zona? E quando deixamos de ser intocáveis e passamos a ser tratados como cidadãos comuns, com direito a borrachadas, balas no olho, spray de pimenta e toda a sorte de tratamentos dispensados a qualquer um, mas nunca à sagrada imprensa?

Creio que, independentemente do desfecho dos protestos, a insurgência paulistana mostra que é preciso redesenhar o papel do jornalista. Que o profissional da imprensa, tão acostumado a se olhar no espelho como super heroi (culpa de alguns quadrinhos que colocam os maiores defensores da humanidade como, também, profissionais da notícia?) precisa descer do seu pedestal, esquecer sua pequena superioridade e redescobrir que sua função primária, a de ator social comum, reles, vil, é primordial para que sua nobreza jornalística seja elevada ao extremo.

Nós, classe desvalorizada pelo mercado de trabalho, mas com egos astronômicos, servimos para quê, já que, segundo dizem desde a derrubada do diploma obrigatório pelo excelentíssimo Gilmar Mendes, “jornalista qualquer um pode ser”? Precisamos nos reencontrar, entender novamente nosso lugar no mundo e, jamais, duvidar de sua importância.

Sim, hoje qualquer um publica seus relatos, mas nós ainda somos necessários como os generalistas da notícia, buscadores incansáveis dos fatos – mas precisamos retornar às raízes e reconsiderar todos os fatos. Todo jornalista é (ou deveria ser) essencialmente um ser plural. Afinal, somos especialistas em nada, mas precisamos falar sobre tudo. Não deixemos a pressa, os deadlines apertados, a necessidade de fazer mais do que nosso tempo nos permite, nos tirar o que temos de mais precioso – e que nos diferencia dos escribas do povo – os fatos, todos eles, com seus pormenores e nuances.

Reportar de cima vale, mas não é fiel à realidade, a visão panorâmica não é a mesma de quem está ao lado e, portanto, não tem o mesmo rigor de quem apenas quer entender o que acontece. E isso, em tempos de imediatismo e hipervelocidade, é muito mais valoroso que qualquer grandeza ilusória.

* Texto originalmente publicado no portal Consumidor Moderno.

1 comment:

  1. Já estava na hora de colocarem vcs em seus lugares, rsrsrsrs
    Brincadeira...mas a midia deu uma visao de mercado, atrelada a interesses politicos e isso era esperado.

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